Indicadores de Qualidade
Imagine uma empresa que entrega todos os
pedidos no prazo, possui equipamentos altamente eficientes e uma manutenção
impecável. Mesmo assim, os clientes continuam reclamando.
O que está acontecendo?
A resposta provavelmente está na qualidade.
Neste artigo, vamos mudar um pouco a
perspectiva sobre indicadores, nos últimos artigos falamos sobre alguns dos
principais indicadores usados para medir o desempenho de um processo, como OEE,
Lead Time, MTTR e MTBF. Agora vamos falar de indicadores que auxiliam a medir a
qualidade do meu processo.
Embora existam indicadores específicos para
qualidade, muitos indicadores de desempenho também fornecem informações
importantes sobre ela.
O OEE, por exemplo, possui uma dimensão
dedicada à qualidade, que mede qual percentual da produção foi aprovado sem
necessidade de retrabalho ou descarte.
Já o Lead Time pode indicar problemas de
qualidade quando atrasos frequentes geram insatisfação do cliente ou
descumprimento de prazos.
Por isso como já falamos todos os indicadores
auxiliam em diferentes visões do meu processo. Porém existem aqueles que
mostram de forma mais clara e direta uma visão desejada.
O que é Qualidade?
Antes de começarmos a falar de indicador de
qualidade precisamos responder algumas perguntas.
Quem define
o que é qualidade?
O que afeta
a qualidade no meu processo?
A resposta para essas perguntas é essencial
para definirmos o que e como vamos medir nossos indicadores.
Vamos às possíveis respostas
Quem define o que é qualidade?
No geral quem define o que é qualidade é o
cliente a pessoa ou empresa que irá usufruir do produto ou serviço, porém
existem fontes de definição como órgãos governamentais que definem regras e
legislações a serem seguidas e setores internos da empresa que pode exigir algumas
especificações que não afetam o cliente, mas afetam a cadeia e que se não forem
respeitadas podem em algum momento gerar dano ao produto ou serviço.
Qualidade é atender aos requisitos definidos
para um produto ou serviço. Esses requisitos normalmente são definidos pelo
cliente, mas também podem ser estabelecidos por legislações, normas técnicas ou
necessidades internas da empresa.
O que afeta a qualidade no meu processo?
Uma vez definido o que são as especificações
de qualidade por parte dos clientes, órgãos reguladores e setores da empresa,
precisamos identificar onde dentro do meu processo eu posso afetar alguma
dessas especificações.
Exemplo:
Quando o cliente compra um produto que na
embalagem diz ter 1 kg, se ele após a compra verificar que tem apenas 0,75 kg
ele ficara insatisfeito.
Precisamos identificar onde no meu processo
esse erro pode acontecer?
Nesse caso, a etapa crítica é o enchimento da
embalagem. Portanto, precisamos monitorar continuamente o peso dos produtos
durante essa operação.
O indicador pode ser, por exemplo:
percentual de embalagens fora da especificação;
quantidade de rejeições por peso;
índice de retrabalho causado por peso incorreto.
Dessa forma, o indicador deixa de apenas
informar que houve um problema e passa a ajudar a identificar onde agir.
Transformando requisitos em indicadores
Medir qualidade não significa apenas contar
defeitos ou reclamações. Significa entender quais características realmente
importam para o cliente, identificar em quais etapas do processo essas
características podem ser comprometidas e acompanhar continuamente essas etapas
por meio de indicadores.
Quanto mais cedo identificamos um desvio,
menor é seu impacto sobre custos, produtividade e principalmente sobre a satisfação
do cliente.
A visão que precisamos seguir é:
Cliente - Define
os Requisitos à Processo - Identificar etapas que
podem afetar os Requisitos à Medição - Criar Indicadores e forma
mais adequada de monitorar os requisitos à Ação
– Monitorar os resultados e definir iniciativas para melhorar o processo
quando necessário.
Exemplo:
Ele quer o produto com a quantidade descrita na embalagem, 1 kg.
Requisito - Peso conforme especificado na embalagem
Processo: Qual a etapa afeta o requisito?
Etapa de enchimento da embalagem.
Medição:
O que medir? - Peso da Embalagem.
Como medir? - Balança calibrada.
Onde medir? - Após enchimento do pacote.
Quando medir? - A cada 2 horas.
Quanto medir? - 5 pacotes.
Quem mede? - Analista de qualidade
Ação: O que fazer?
Resultado dentro do esperado. - Continuar monitorando o processo.
Resultado fora do esperado. - Informar responsável e solicitar correção
Seguir esse raciocínio permite definir de
forma adequada o que realmente precisa ser monitorado e como esse
monitoramento será realizado. Dessa forma, evitamos tanto o excesso de
informações desnecessárias quanto a ausência de controles importantes.
Indicadores Reativos e Proativos
Existem duas formas para medir a qualidade de
um processo, reativa e proativa.
Reativa: quando
esperamos o cliente nos dizer o que ele acha do nosso produto ou serviço, eles normalmente
possuem menor custo de medição, pois dependem principalmente dos canais de
atendimento ao cliente. Entretanto, o custo das falhas que eles revelam
costumam ser muito maior, já que o problema já chegou ao mercado.
São exemplos de indicadores Reativos:
Reclamação
de Cliente;
Devolução;
NPS (Net
Promoter Score);
Reclamação
em órgão de defesa do consumidor.
Proativa: são mesurados
durante o processo antes que o produto ou serviço seja entregue ao cliente, muitas
vezes feito de forma amostral quando não é possível analisar 100% do processo e
normalmente exigem investimento em inspeções, equipamentos de medição,
amostragem ou ensaios laboratoriais. Em muitos casos, essas inspeções também
exigem o descarte das amostras utilizadas.
Porém eles permitem à empresa detectar um
problema antes que chegue ao cliente evitando riscos de exposição da marca.
São exemplos de indicadores Proativos:
Refugo e Retrabalho;
Produto não
conforme;
Capabilidade
(Cp e Cpk).
Uma boa gestão de qualidade equilibra essas
duas visões, reativa e proativa, sempre que possível, priorizamos trabalhar com
indicadores proativos a fim de evitar que o problema chegue ao cliente, mas ter
uma visão reativa ajuda a entender a visão do nosso cliente em relação ao nosso
processo e entender se as barreiras internas estão funcionando.
Essa avaliação conjunta é importante pois
imagine se os resultados dos indicadores proativos estão bons, mas estamos com
muita reclamação de clientes, isso não deveria acontecer. Ou estamos medindo de
forma errada os indicadores proativos ou não estamos cobrindo todos os pontos
internos, isso pode indicar que nosso entendimento sobre o que realmente
representa qualidade para o cliente não está correto.
Principais Indicadores.
Agora que entendemos melhor como funciona a
lógica dos indicadores de qualidade segue alguns dos principais indicadores
usados no mercado.
Produto Não Conforme: Produtos que não atendem uma ou mais especificações de qualidade, esses
produtos podem ser classificados como:
Refugo /
Perda – Quando não é possível corrigir o desvio e o mesmo deve ser descartado.
Retrabalho – São
produtos que conseguimos corrigir o desvio, eles não contam como perda, mas
acabam gerando um consumo de recurso adicional para sua correção.
Um sistema
de qualidade eficiente busca identificar esses produtos antes que eles sejam
enviados ao cliente, reduzindo custos e protegendo a imagem da empresa.
Não necessariamente todo produto fora de
especificação pode vir a gerar uma perda ou retrabalho em alguns casos quando o
desvio não afeta a funcionalidade do produto e afeta apenas uma questão
estética a empresa pode optar por vender e tratar individualmente possíveis
reclamações ou vender em canais onde vende produto com pequenos defeitos.
PPM (Parts Per Million): mede quantas peças defeituosas existem para
cada milhão de unidades produzidas. É amplamente utilizado em setores como
automotivo, eletrônico e aeroespacial devido à alta exigência de qualidade. Quanto
menor o PPM, melhor é o desempenho da qualidade do processo.
FTY (First Time Yield): mede o percentual de produtos aprovados na primeira passagem por uma
operação, sem necessidade de retrabalho.
Exemplo: Foram
processadas 100 embalagens na etapa de enchimento e 80 passaram sem necessidade
de retrabalho.
FTY é 80/100
= 80%.
RTY (Rolled Throughput Yield): mede o rendimento do processo completo, considerando todas as etapas. Ele
representa a probabilidade de um produto percorrer todo o fluxo sem precisar de
retrabalho em nenhuma operação. É calculado multiplicando os FTY de cada etapa.
Exemplo: Imagine
um processo com as seguintes etapas:
Corte à Montagem à Inspeção, o FTY de cada etapa respectivamente
é 98%, 97% e 99%.
RTY = 0,98*0,97*0,99
= 94,1%
Ou seja,
embora cada etapa tenha um bom desempenho individual, apenas 94,1% dos produtos
passaram pelo processo inteiro sem nenhuma intervenção.
Observação: Em algumas
empresas o RTY é chamado de FPY (First Pass Yield). Entretanto, essa
nomenclatura não é universal, sendo comum encontrar FPY como sinônimo de FTY em
algumas organizações.
Enquanto indicadores como Produto Não Conforme
e Reclamações mostram a ocorrência de desvios, indicadores como FTY, RTY e PPM
ajudam a avaliar a capacidade do processo de produzir corretamente desde a
primeira vez.
Reclamação de Clientes: É o total de atendimento via canais de atendimento (Serviço de
Atendimento ao Cliente, Ouvidoria, Reclame Aqui) realizados. Esse indicador
pode ser mensurado em quantidade absoluta ou pode ser ponderado pelo total de
vendas dessa forma temos uma referência do quão significativo é o número de
reclamações.
Um
indicador isolado raramente conta toda a história. O verdadeiro valor da gestão
está em analisar os indicadores em conjunto.
Exemplo: se em um
mês tivemos um número elevado de reclamações de clientes devido a peso abaixo
do especificado, mas quando analisamos o indicador de produto não conforme não
encontramos no mês corrente nem nos anteriores casos desse mesmo tema
precisamos reavaliar nossos controles. Agora se é possível encontrar problemas
internos relacionados a esse mesmo tema isso significa que nossos controles
estão funcionando, mas não são capazes de barrar que 100% dos produtos não
cheguem aos clientes.
Conclusão.
Indicadores de qualidade não existem apenas
para mostrar quando algo deu errado. Eles existem para ajudar a empresa a agir
antes que o cliente perceba o problema.
Quanto melhor entendemos o que realmente
importa para o cliente e monitoramos essas características ao longo do
processo, maiores são as chances de entregar produtos e serviços com
consistência, reduzir desperdícios e fortalecer a confiança na marca.
Independentemente do indicador escolhido, o
mais importante é que ele gere ações. Um indicador que apenas produz
relatórios, mas não orienta decisões, dificilmente contribuirá para a melhoria
do processo.
O que vem no próximo artigo?
Até aqui falamos sobre indicadores de desempenho
e qualidade.
No próximo artigo vamos falar de indicadores
de Custo, dessa forma conseguimos fechar uma visão completa do nosso processo.
Desempenho – conseguimos usar bem nossos
recursos e produzir de forma a atender o mercado?
Qualidade – o que produzimos atende as
especificações dos clientes?
Custo – nosso processo é rentável?
Quando conseguimos equilibrar desempenho,
qualidade e custo, aumentamos significativamente as chances de construir um
processo eficiente, competitivo e sustentável no longo prazo.
Até lá!👋

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