Os Desperdícios do Lean: por que seus indicadores não melhoram?
Nos últimos artigos falamos sobre como medir o
desempenho dos processos por meio de indicadores de performance, qualidade,
tempo e custo. Mas medir é apenas o primeiro passo. A verdadeira evolução
acontece quando entendemos o que está impedindo esses indicadores de melhorar.
Quando iniciamos uma investigação para
descobrir as causas de um baixo desempenho, é comum imaginarmos problemas
complexos, grandes investimentos ou soluções sofisticadas. Na prática, porém,
os principais ofensores costumam ser muito mais simples do que parecem.
É justamente nesse ponto que entra um dos
principais conceitos do Lean: a eliminação dos desperdícios.
Toda empresa possui desperdícios. A diferença
entre as empresas de alta performance e as demais não é a ausência deles, mas a
capacidade de identificá-los e eliminá-los continuamente.
Lean / Sistema Toyota de Produção
Antes de falar dos desperdícios, precisamos
entender a origem do conceito. Muitas pessoas associam os desperdícios
diretamente ao Lean, o que não está errado. No entanto, o Lean é uma filosofia
inspirada no Sistema Toyota de Produção (Toyota Production System – TPS),
e foi nele que esse conceito nasceu.
O Sistema Toyota de Produção foi desenvolvido
ao longo de várias décadas, principalmente entre o pós-guerra e a década de
1970. Após a Segunda Guerra Mundial, o então presidente da Toyota, Toyoda
Kiichiro, lançou um desafio: tornar a produtividade da empresa comparável à
das indústrias dos Estados Unidos em apenas três anos. Na época, estimava-se
que um operador americano produzia o equivalente ao trabalho de aproximadamente
nove operadores japoneses.
Diversos profissionais participaram dessa
transformação, mas o principal arquiteto do Sistema Toyota de Produção foi Taiichi
Ohno, responsável por consolidar muitos dos conceitos que hoje fazem parte
do Lean.
Para alcançar esse objetivo, Ohno propôs uma
forma diferente de enxergar os processos. Em vez de analisar apenas quanto uma
empresa produzia, ele passou a questionar quanto do esforço realmente gerava
valor para o cliente.
A partir dessa visão surgiram dois conceitos
fundamentais:
Desperdício - são atividades que não transformam o produto ou serviço, mas consomem tempo e recursos
Capacidade = Valor Agregado + Desperdício
Por exemplo, usinar uma peça faz parte da
fabricação de um automóvel e agrega valor ao produto. Porém, se essa peça for
produzida incorretamente ou se forem fabricadas mais peças do que o necessário,
teremos consumido matéria-prima, tempo de máquina e mão de obra sem gerar
qualquer valor para o cliente. Esse é um desperdício.
Essa mudança de perspectiva revolucionou a
forma de melhorar processos. Em vez de apenas aumentar a produção, o foco
passou a ser eliminar tudo aquilo que consome recursos sem gerar valor.
É justamente por isso que os desperdícios
impactam praticamente todos os indicadores que discutimos nos artigos
anteriores: aumentam custos, elevam o lead time, reduzem a produtividade,
comprometem a qualidade e diminuem a eficiência dos equipamentos.
Desperdício
Embora cada desperdício possua características
próprias, eles raramente aparecem isolados. Em muitos casos, um desperdício
acaba provocando outro. É por isso que identificá-los é um dos primeiros passos
para melhorar qualquer processo
Existem sete desperdícios clássicos, que são a
base no Sistema Toyota, eles são:
Superprodução: É o desperdício de produzir mais cedo ou
maior quantidade do que a demanda real. Esse desperdício é comum em empresas de
manufatura, gerando impacto direto em custo.
Muitas vezes existe a percepção que produzir
lotes maiores reduzir o custo unitário, uma vez que dilui o custo fixo, diminui
a frequência de setups e pode aumentar o poder de negociação com fornecedores.
Mas o que acontece quando não existe cliente
para consumir essa produção?
Se não existe demanda, a empresa apenas
transforma matéria-prima em estoque. Como consequência, surgem novos custos
relacionados ao armazenamento, movimentação, controle de inventário, além do
risco de perdas por vencimento, obsolescência ou depreciação dos produtos.
A mentalidade deve ser produzir a quantidade
certa, no momento certo e para atender a uma necessidade real do cliente.
Espera: Quanto tempo você já ficou esperando por
uma consulta médica ou pelo atendimento de um call center?
Provavelmente mais vezes do que gostaria. E,
nesses momentos, um pensamento quase sempre passa pela nossa cabeça: "Eu
poderia estar fazendo algo mais produtivo."
Essa é exatamente a lógica do desperdício de
espera dentro de uma empresa. Ele ocorre quando pessoas, equipamentos ou
processos permanecem parados aguardando que alguma condição seja atendida para
que a atividade possa continuar.
Essa espera pode ser causada pela falta de
material, indisponibilidade de equipamentos, atraso na liberação, necessidade
de aprovação de documentos ou qualquer outro recurso indispensável para a
continuidade do processo.
Cada minuto de espera representa capacidade
produtiva que deixa de ser utilizada. Como consequência, a produtividade
diminui, o lead time aumenta e cresce o risco de atrasos, insatisfação e
reclamações por parte dos clientes.
Transporte: O desperdício de transporte ocorre quando materiais, produtos,
equipamentos ou até mesmo pessoas precisam ser movimentados entre diferentes
locais sem necessidade ou por um percurso maior do que o necessário.
Imagine um centro de distribuição em que o
operador movimenta um pallet três vezes antes da expedição apenas porque o
layout foi mal planejado. Além de ser uma atividade que não agrega valor ela coloca
em rico a integridade do produto
É importante destacar que nem todo transporte
é um desperdício. Em muitos processos, movimentar o produto faz parte da
operação, como a entrega ao cliente ou a transferência entre etapas produtivas
que não podem ocorrer no mesmo local. O desperdício está na movimentação
desnecessária, em trajetos mal planejados, em múltiplas transferências do mesmo
material.
Movimentação: À primeira vista, movimentação e transporte podem parecer o mesmo
desperdício, mas eles representam conceitos diferentes.
Enquanto o transporte está relacionado à movimentação
de materiais, produtos ou informações entre diferentes locais, a movimentação
está relacionada aos deslocamentos e movimentos realizados por pessoas ou
equipamentos durante a execução de uma atividade.
Esse desperdício ocorre quando um operador
precisa caminhar excessivamente, procurar ferramentas, abaixar repetidamente,
realizar movimentos desnecessários ou quando uma máquina executa movimentos que
não contribuem para a transformação do produto. Embora essas ações consumam
tempo e energia, elas não agregam valor ao cliente.
Por exemplo imagine a troca de um pneu. Uma
pessoa pode pegar todas as ferramentas necessárias no porta-malas, ir até o pneu
com problema e realizar toda a troca. Outra pode levar apenas a chave de rodas,
voltar para buscar o macaco e depois voltar novamente para pegar o estepe. O
resultado final será o mesmo, mas a segunda opção exige mais deslocamentos,
consome mais tempo e representa um desperdício de movimentação.
Estoque: O
estoque, por si só, não é um desperdício. Em muitos processos ele é necessário
para garantir que a produção não seja interrompida por falta de matéria-prima,
componentes ou produtos.
O desperdício acontece quando existe estoque
em excesso, normalmente causado por superprodução, planejamento inadequado
da demanda ou políticas de compra ineficientes. Além de imobilizar capital, o
excesso de estoque aumenta os custos de armazenagem, ocupa espaço físico e
eleva o risco de perdas por vencimento, obsolescência ou depreciação.
Outro ponto importante é que o estoque
excessivo esconde problemas do processo. Enquanto há material sobrando,
falhas de planejamento, qualidade ou produtividade passam despercebidas. Quando
o estoque é reduzido, esses problemas aparecem e podem ser tratados.
Uma das principais estratégias do Lean para
reduzir esse desperdício é o Just in Time, conceito que será explorado
no próximo artigo.
Processamento Desnecessário: Se essa atividade deixasse de existir, o cliente perceberia alguma
diferença no produto ou serviço?
Se a resposta for não, existe uma grande
chance de estarmos diante de um processamento desnecessário.
Esse desperdício pode aparecer de diversas
formas: inspeções duplicadas, preenchimento de documentos que ninguém consulta,
aprovações excessivas, retrabalho administrativo ou controles que perderam o
propósito ao longo do tempo.
Por exemplo, imagine uma peça que é medida
para validar suas dimensões e, logo em seguida, passa por uma segunda medição
exatamente com o mesmo objetivo, sem que nenhuma transformação tenha ocorrido
entre uma etapa e outra. Outro exemplo bastante comum é a necessidade de obter
diversas assinaturas para retirar um material de baixo valor do almoxarifado.
Em ambos os casos, o processo consome tempo e recursos sem entregar qualquer
benefício adicional ao cliente.
Esse desperdício pode impactar diversos
indicadores. Ele aumenta o Lead Time ao introduzir etapas e aprovações
desnecessárias, eleva os custos por consumir mão de obra e recursos que
poderiam ser utilizados em atividades de valor agregado e, em processos
produtivos, pode até reduzir o OEE, principalmente ao afetar a
performance dos equipamentos e operadores.
Defeito: É é
provavelmente o mais conhecido e o mais fácil de identificar. Ele ocorre sempre
que um produto ou serviço não atende aos requisitos esperados e precisa ser
retrabalhado, corrigido ou até mesmo descartado.
Em outras palavras, esse desperdício está
relacionado a tudo aquilo que não foi feito corretamente na primeira vez.
Os defeitos podem aparecer de diversas formas:
um formulário preenchido incorretamente, uma peça produzida fora das
especificações, um atendimento realizado com informações incorretas ou um
serviço entregue fora do prazo acordado.
Além do desperdício de materiais, os defeitos
normalmente geram retrabalho, aumentam o tempo de execução do processo, elevam
os custos e, quando chegam ao cliente, comprometem a qualidade percebida e a
confiança na empresa.
Entretanto, é importante lembrar que nem
todos os defeitos possuem o mesmo impacto. Devemos priorizar aqueles que
comprometem a funcionalidade do produto, a segurança, os requisitos legais ou
características visuais que influenciam a percepção do cliente.
Isso não significa que os demais defeitos
devam ser ignorados. Eles precisam ser monitorados e analisados. O cuidado está
em não criar processos de inspeção excessivos ou controles desproporcionais
para eliminar defeitos de baixo impacto, pois isso pode gerar outro desperdício
com o processamento desnecessário.
O oitavo desperdício: Subaproveitamento do
Potencial Humano.
Os sete desperdícios apresentados
anteriormente fazem parte da concepção original do Sistema Toyota de Produção.
Entretanto, ao longo dos anos, muitas empresas e autores passaram a considerar
um oitavo desperdício: o subaproveitamento do potencial humano.
Enquanto os sete primeiros estão relacionados
aos processos, este desperdício está relacionado às pessoas.
Algumas perguntas simples ajudam a identificar
esse desperdício:
Estamos aproveitando o conhecimento e a experiência dos profissionais para resolver os problemas do processo?
Os colaboradores têm espaço para propor melhorias e participar da evolução dos processos?
Se a resposta para essas perguntas for não,
existe uma grande chance desse desperdício estar presente.
É comum ouvirmos empresas afirmarem que falta
mão de obra. Mas quando analisamos o processo com mais profundidade, muitas
vezes encontramos profissionais altamente qualificados dedicando boa parte do
seu tempo a atividades repetitivas e de baixo valor agregado, como preencher
planilhas, consolidar informações manualmente ou participar de reuniões sem um
objetivo claro.
Outra situação bastante frequente é a
contratação de consultorias ou especialistas externos para desenvolver soluções
que poderiam ser construídas pelos próprios colaboradores da empresa, que
conhecem profundamente o processo e convivem diariamente com seus desafios.
Isso não significa que consultorias não sejam
importantes. Pelo contrário: elas trazem metodologias, experiência e uma visão
externa que frequentemente aceleram a transformação. O desperdício ocorre
quando a empresa deixa de desenvolver e aproveitar o conhecimento das pessoas
que já fazem parte da organização.
A principal reflexão é simples:
Estamos utilizando todo o potencial das
pessoas ou apenas sua capacidade de executar tarefas?
|
Desperdício |
Principal impacto |
Principal impacto |
|
Superprodução |
Estoque |
Custo |
|
Espera |
Tempo parado |
Lead Time |
|
Transporte |
Movimentação excessiva |
Lead Time |
|
Movimentação |
Tempo improdutivo |
Lead Time |
|
Estoque |
Capital parado |
Custo |
|
Processamento Desnecessário |
Burocracia |
Lead Time, OEE |
|
Defeitos |
Retrabalho / Perda |
Qualidade, Custo, OEE |
|
Potencial Humano |
Baixa inovação |
Produtividade |
O nono desperdício?
Os sete desperdícios clássicos foram criados
em uma época em que os principais desafios estavam relacionados ao fluxo
produtivo. Anos depois, surgiu a discussão sobre o oitavo desperdício, o
subaproveitamento do potencial humano, ampliando o foco do processo para as
pessoas.
Hoje, vivemos uma nova transformação. A
digitalização, a Inteligência Artificial e a automação passaram a fazer parte
da rotina das empresas e, com isso, surge uma reflexão interessante:
Será que o uso inadequado da tecnologia pode
se tornar um novo desperdício?
Nos últimos anos, os investimentos em
softwares, plataformas digitais e Inteligência Artificial cresceram
significativamente. No entanto, investir em tecnologia não significa,
necessariamente, gerar valor.
Faça uma reflexão simples: pense em todos os
recursos disponíveis no seu celular. Quantos deles você realmente utiliza?
Nas empresas acontece algo semelhante. Muitas
organizações acumulam licenças de softwares com funcionalidades semelhantes,
contratam ferramentas que nunca são plenamente utilizadas ou implementam
sistemas que não se comunicam entre si.
Quando bem aplicada, a tecnologia pode
eliminar diversos desperdícios. A Inteligência Artificial, por exemplo, já
auxilia na elaboração de apresentações, revisão de textos, transcrição e resumo
de reuniões, análise de documentos e automatização de atividades repetitivas,
liberando as pessoas para tarefas de maior valor agregado.
Por outro lado, quando implementada sem
planejamento, a tecnologia pode produzir exatamente o efeito contrário.
Uma equipe sem treinamento pode gastar mais
tempo tentando utilizar uma nova ferramenta do que executando a atividade da
forma anterior. Sistemas que não compartilham informações obrigam o lançamento
dos mesmos dados em diferentes plataformas. Integrações inexistentes geram
retrabalho. Modelos de Inteligência Artificial mal configurados produzem
respostas incorretas que precisam ser revisadas manualmente. Além disso, muitas
soluções dependem de infraestrutura adequada de rede e conectividade; quando
essa estrutura não existe, surgem interrupções, perda de informações e atrasos
no processo.
Em outras palavras, a tecnologia deixa de
eliminar desperdícios e passa a criá-los.
Por isso, antes de investir em uma nova
tecnologia, vale responder algumas perguntas:
Já existe uma ferramenta semelhante sendo utilizada na empresa?
As pessoas estão preparadas para utilizá-la?
A nova tecnologia se integra aos sistemas já existentes?
A infraestrutura atual suporta sua implantação?
O Lean sempre nos ensinou que devemos eliminar
tudo aquilo que consome recursos sem gerar valor ao cliente. Talvez esse
princípio também deva orientar a forma como adotamos novas tecnologias. Afinal,
tecnologia só representa inovação quando efetivamente melhora o processo.
Conclusão.
Os desperdícios mudam de forma ao longo do
tempo, mas continuam tendo a mesma consequência: aumentam custos, reduzem a
produtividade, elevam o Lead Time e comprometem a qualidade.
Independentemente de estarmos falando de uma
linha de produção, de um escritório ou de uma Inteligência Artificial, a
pergunta continua sendo a mesma:
Essa atividade está gerando valor para o
cliente ou apenas consumindo recursos?
O que vem no próximo artigo?
Neste artigo entendemos que eliminar
desperdícios é um dos pilares do Lean. Mas existe uma pergunta que naturalmente
surge:
Como evitar que esses desperdícios aconteçam?
No próximo artigo vamos conhecer dois dos
conceitos mais importantes do Sistema Toyota de Produção: processo puxado x
processo empurrado e o Just in Time.
Você vai entender como esses conceitos ajudam
a reduzir desperdícios como superprodução, estoques excessivos e esperas,
permitindo que a produção aconteça na quantidade certa, no momento certo e
para atender à demanda real do cliente.

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