Produção Puxada x Produção Empurrada: Entenda as Diferenças e Quando Usar Cada Uma

Produção puxada e produção empurrada em um ambiente industrial

No início do século XX, Henry Ford enfrentava um desafio que mudaria a indústria automobilística: como produzir automóveis em grande escala, com alta padronização e a um custo cada vez menor? A resposta foi a produção em massa, baseada em linhas de montagem padronizadas, grandes volumes e poucos modelos. [3]

Algumas décadas depois, a Toyota enfrentava um cenário bastante diferente. O mercado japonês era menor e apresentava maior variedade, enquanto a empresa tinha menos condições de manter grandes estoques e produzir enormes lotes para venda futura. Era necessário encontrar outra forma de organizar a produção.

Foi nesse contexto que a Toyota desenvolveu o Sistema Toyota de Produção, buscando maior flexibilidade, menores lotes e uma forma diferente de coordenar o fluxo produtivo. Entre seus princípios estava a produção orientada pelas necessidades do processo seguinte, conceito associado à lógica de produção puxada descrita por Taiichi Ohno. [1]

Produção empurrada

A produção empurrada é um modelo em que o planejamento da fábrica é realizado antecipadamente, frequentemente com base em previsões de demanda e na disponibilidade ou capacidade produtiva. Ou seja, a empresa define o que, quanto e quando produzir antes que exista um consumo real que acione a produção.

Em outras palavras, primeiro a empresa produz e, depois, espera que o mercado consuma aquilo que foi fabricado.

Exemplo

Imagine uma empresa que fabrica três produtos: A, B e C.

Com base em suas previsões de vendas, ela estima comercializar na próxima semana:

  • 200 unidades do produto A;
  • 100 unidades do produto B;
  • 100 unidades do produto C.

Sabendo que sua fábrica possui capacidade para produzir 100 unidades por dia e opera cinco dias por semana, o planejamento define a seguinte sequência:

  • Segunda e terça-feira: produto A;
  • Quarta-feira: produto B;
  • Quinta-feira: produto C.

Dessa forma, são necessárias apenas duas trocas de produto (setups), reduzindo paradas e diluindo os custos fixos da produção.

À primeira vista, esse modelo parece bastante eficiente. E, de fato, em muitos cenários ele é.

O problema surge quando a realidade do mercado muda mais rápido do que o planejamento da fábrica.

Imagine que, enquanto a empresa está produzindo o item B, uma mudança na demanda faça com que a nova previsão seja:

  • Produto A: 50 unidades;
  • Produto B: 100 unidades;
  • Produto C: 300 unidades.

Nesse momento, a empresa já produziu 200 unidades do produto A. Como apenas 50 serão consumidas naquele período, 150 unidades passarão a compor o estoque.

Ao mesmo tempo, talvez não exista tempo suficiente para produzir toda a nova demanda do produto C, aumentando o risco de atrasos nas entregas.

Perceba que o problema não foi a previsão em si. O problema foi produzir grandes lotes antes de confirmar a necessidade real do mercado.

É justamente nesse tipo de situação que a produção empurrada pode favorecer a superprodução: quando a produção é realizada antes de uma necessidade real e a demanda muda, parte do que foi produzido pode permanecer em estoque. Como vimos no artigo anterior, a superprodução pode contribuir para outros desperdícios, como excesso de estoque, movimentações adicionais e transporte.

Isso não significa que a produção empurrada seja um modelo ruim.

Ela continua sendo uma alternativa adequada em operações com demanda relativamente estável, pouca variedade de produtos e baixo risco de obsolescência.

Um bom exemplo é a produção de commodities. Em geral, existe uma demanda consistente, os produtos possuem baixa variedade e podem permanecer armazenados por determinado período sem perder seu valor comercial.

Nessas situações, produzir grandes lotes pode ser economicamente mais vantajoso do que realizar diversas pequenas produções ao longo do tempo.

Por outro lado, mercados com alta volatilidade, grande variedade de produtos e mudanças frequentes na demanda exigem um sistema mais flexível, capaz de responder rapidamente às necessidades do cliente.

Foi justamente esse desafio que levou a Toyota a desenvolver um modelo diferente de produção.

Produção puxada

A produção puxada segue uma lógica diferente da produção empurrada.

Enquanto na produção empurrada a fábrica define antecipadamente o que será produzido com base em previsões e planejamento, na produção puxada a produção é acionada por uma necessidade de consumo ou reposição, utilizando sinais que conectam essa necessidade às etapas anteriores do processo.

Em outras palavras, uma necessidade identificada no processo passa a “puxar” a produção das etapas anteriores.

Esse sinal pode estar relacionado ao consumo do cliente final, mas também pode ocorrer internamente, quando uma etapa precisa repor o que foi consumido pela etapa seguinte.

Isso reduz o risco de fabricar produtos sem uma necessidade identificada e de manter itens em estoque sem que exista uma demanda ou reposição que os justifique.

Exemplo

Imagine uma empresa em que o produto A passa por duas etapas de produção. A etapa final mantém um pequeno estoque intermediário e retira peças conforme as unidades são consumidas.

Ao longo do turno, a etapa final consome 40 unidades do produto A. Ao atingir o nível definido para reposição, esse consumo gera um sinal para a etapa anterior produzir e repor as 40 unidades utilizadas.

A etapa anterior, portanto, não produz simplesmente porque existe uma previsão de que 40 unidades serão necessárias. Ela recebe o sinal de reposição gerado pelo consumo da etapa seguinte e produz a quantidade necessária para recompor o estoque intermediário.

Se a etapa seguinte consumir apenas 20 unidades, o sinal de reposição será correspondente a essa necessidade. Se o consumo aumentar para 60 unidades, o sinal também poderá refletir essa nova necessidade, desde que o processo tenha capacidade para responder.

Nesse exemplo, a produção é puxada pelo consumo da etapa seguinte:

consumo → sinal de reposição → produção na etapa anterior

O cliente final pode estar na origem da demanda, mas a lógica de puxada não depende necessariamente de um pedido individual do cliente.

Isso não significa que a produção puxada elimine o planejamento. A empresa ainda precisa definir parâmetros, capacidade, estoques de processo e regras de reposição. A diferença está na forma como a necessidade é transmitida ao processo que deve produzir.

Comparação entre os fluxos da produção empurrada e da produção puxada

Produção puxada e o desafio dos setups

Existe, porém, um desafio importante. Produzir em lotes menores, como pode ocorrer em uma lógica puxada, normalmente significa realizar mais trocas de produto durante o processo. A frequência dessas trocas depende das características do processo, da variedade de produtos e da forma como os lotes são definidos.

Quanto maior o tempo necessário para cada setup, maior pode ser o impacto sobre a disponibilidade do equipamento, a produtividade e os custos de fabricação. Por isso, trabalhar com lotes menores exige avaliar se o processo possui capacidade para realizar as trocas necessárias sem comprometer seu desempenho.

Nesse contexto, a redução dos tempos de setup pode ser importante para aumentar a flexibilidade do processo e tornar mais viável a produção em lotes menores. O SMED é uma abordagem voltada à redução dos tempos de setup e pode contribuir nesse sentido, sem que isso signifique que toda produção puxada dependa necessariamente dessa ferramenta.

Relação com outros conceitos

A produção puxada se relaciona com outros conceitos de gestão da produção.

  • O Kanban pode funcionar como sinal de puxada;
  • O Heijunka busca nivelar a produção;
  • O Just in Time está relacionado à produção do necessário no momento necessário;
  • O SMED é uma abordagem para reduzir tempos de setup e ampliar a flexibilidade para mudanças de produto;
  • O Takt Time relaciona o ritmo de produção à demanda;
  • A Teoria das Restrições ajuda a analisar limitações de capacidade;
  • O Balanceamento de Linha trata da distribuição do trabalho entre os postos.

Esses conceitos serão aprofundados em conteúdos específicos.

Produção Puxada x Produção Empurrada

CaracterísticaProdução EmpurradaProdução Puxada
Planejamento da ProduçãoBaseado em planejamento antecipado, frequentemente orientado por previsões de demandaBaseado em sinais de consumo ou reposição
ObjetivoExecutar a produção definida pelo planejamentoProduzir conforme a necessidade sinalizada pelo processo
Tamanho dos lotesTende a utilizar lotes maioresTende a utilizar lotes menores
EstoquesPode utilizar estoques para absorver variações do planejamentoBusca limitar estoques desnecessários, conforme as condições do processo
FlexibilidadeMenor flexibilidade para mudanças frequentes na demandaMaior flexibilidade, desde que o processo tenha capacidade de resposta
Número de setupsTende a ser menorTende a ser maior, exigindo trocas rápidas
Lead TimeDepende do fluxo, dos lotes, dos estoques e das condições do processoPode ser menor em determinadas condições, mas não é consequência automática da produção puxada
Mercado mais adequadoDemanda relativamente estável e baixa variedadeDemanda variável e maior variedade, quando o processo tem capacidade de resposta

Quando cada lógica pode fazer sentido?

Na prática, também é possível combinar as duas lógicas em diferentes pontos do processo, de acordo com as características de cada etapa.

Em ambientes com demanda estável, baixa variedade de produtos e pouca volatilidade, a produção empurrada pode ser uma estratégia bastante eficiente.

Em processos com maior diversidade de produtos, mudanças frequentes na demanda ou necessidade de respostas mais rápidas, a produção puxada pode fazer sentido, desde que o processo tenha condições de responder a essa lógica.

Na prática, muitas empresas adotam uma combinação das duas lógicas. Parte da produção pode ser planejada com base em previsões, enquanto outras etapas utilizam sinais de consumo ou reposição. O desenho depende das características de cada produto, processo e etapa do fluxo.

Mais importante do que escolher um modelo de forma isolada é compreender as características da demanda, dos produtos e do próprio processo. A análise dessas condições ajuda a definir onde cada lógica pode fazer sentido e como elas podem ser combinadas.

Conclusão

Produção empurrada e produção puxada organizam a produção de maneiras diferentes, mas nenhuma lógica é adequada para todos os processos. A escolha depende das características da demanda, da variedade de produtos, dos lotes, dos setups, da capacidade, da flexibilidade e da necessidade de estoque.

Em muitos casos, as duas lógicas podem ser combinadas em diferentes pontos do fluxo. Mais importante do que escolher um modelo de forma isolada é compreender as características do produto e do processo para definir onde cada lógica pode fazer sentido.

Referências bibliográficas

  • [1] OHNO, Taiichi. O Sistema Toyota de Produção: além da produção em larga escala. Porto Alegre: Bookman, 1997.
  • [2] SHINGO, Shigeo. O Sistema Toyota de Produção: do ponto de vista da Engenharia de Produção. Porto Alegre: Bookman, 1996.
  • [3] WOMACK, James P.; JONES, Daniel T.; ROOS, Daniel. A máquina que mudou o mundo: baseado no estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT). 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2023.

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