Puxado x Empurrado: por que algumas empresas produzem mais do que precisam?
No artigo anterior, conhecemos os oito desperdícios do Lean e entendemos como cada um deles impacta o desempenho dos processos. Neste artigo, vamos nos aprofundar em um deles: a superprodução.
Esse desperdício é considerado por muitos
especialistas o mais crítico, pois costuma ser a origem de diversos outros
desperdícios, como excesso de estoque, movimentações desnecessárias,
transporte, espera e até retrabalho.
Para entender por que isso acontece, vale
voltar algumas décadas e observar como duas montadoras, Ford e Toyota,
desenvolveram formas completamente diferentes de organizar a produção.
Ford × Toyota
No início do século XX, a Ford revolucionou a
indústria com a produção em massa. Seu modelo era baseado em linhas de montagem
altamente padronizadas, produzindo grandes quantidades de poucos modelos de
automóveis.
Essa estratégia permitia reduzir a necessidade
de mudanças no processo, aumentar a eficiência da produção e diluir os custos
fixos, tornando o custo por unidade cada vez menor.
Esse modelo fazia todo sentido para a época. A
demanda era elevada, havia pouca variedade de produtos e o principal desafio
era produzir o máximo possível para atender um mercado em constante
crescimento.
Com o tempo, esse modelo passou a ser
conhecido como produção empurrada
Essa lógica foi adotada por empresas de
diversos segmentos e continua sendo utilizada em muitas operações até hoje.
Algumas décadas depois, a Toyota enfrentava
uma realidade completamente diferente.
O mercado japonês era menor, os consumidores
buscavam uma variedade muito maior de produtos e a empresa não possuía recursos
para manter grandes estoques ou fabricar enormes lotes aguardando que fossem
vendidos no futuro.
Para competir nesse cenário, a Toyota precisou
desenvolver uma forma diferente de produzir: fabricar em lotes menores, com
maior variedade e utilizando os recursos de forma muito mais eficiente.
Foi dessa necessidade que surgiu uma nova
maneira de organizar a produção. Em vez de fabricar para o estoque, a ideia
passou a ser produzir de acordo com a demanda do cliente. Assim nasceu o
conceito de produção puxada, um dos pilares do Sistema Toyota de
Produção.
Essa mudança de pensamento não aconteceu
apenas para reduzir estoques. Ela mudou completamente a forma de planejar a
produção, substituindo uma lógica baseada em previsões por outra baseada no
consumo real do cliente.
Afinal, qual modelo é o melhor?
A resposta não é tão simples quanto parece.
O modelo da Ford resolveu, com enorme sucesso,
os desafios de sua época. Já a Toyota desenvolveu uma abordagem diferente para
atender um contexto completamente distinto.
Ao longo deste artigo, vamos entender como
cada modelo funciona, suas vantagens, limitações e por que a produção puxada se
tornou uma das bases da filosofia Lean.
Produção empurrada
A produção empurrada é um modelo em que o
planejamento da fábrica é realizado com base em previsões de demanda e na
capacidade produtiva disponível. Ou seja, a empresa decide o que, quanto
e quando produzir antes que exista um consumo real do cliente.
Em outras palavras, primeiro a empresa produz
e, depois, espera que o mercado consuma aquilo que foi fabricado.
Perceba que o problema não foi a previsão em si. O problema foi produzir grandes lotes antes de confirmar a necessidade real do mercado.
É justamente por isso que a produção empurrada
pode favorecer o desperdício da superprodução. E, como vimos no artigo
anterior, a superprodução costuma desencadear diversos outros desperdícios,
como excesso de estoque, movimentações adicionais, transporte, espera e aumento
dos custos operacionais.
Isso não significa que a produção empurrada
seja um modelo ruim.
Ela foi extremamente eficiente no contexto em
que foi desenvolvida e continua sendo uma excelente alternativa em operações
com demanda relativamente estável, pouca variedade de produtos e baixo risco de
obsolescência.
Um bom exemplo é a produção de commodities. Em
geral, existe uma demanda consistente, os produtos possuem baixa variedade e
podem permanecer armazenados por determinado período sem perder seu valor
comercial.
Nessas situações, produzir grandes lotes pode
ser economicamente mais vantajoso do que realizar diversas pequenas produções
ao longo do tempo.
Por outro lado, mercados com alta
volatilidade, grande variedade de produtos e mudanças frequentes na demanda
exigem um sistema mais flexível, capaz de responder rapidamente às necessidades
do cliente.
Foi justamente esse desafio que levou a Toyota
a desenvolver um modelo diferente de produção.
Produção puxada
A produção puxada segue uma lógica diferente
da produção empurrada.
Enquanto na produção empurrada a fábrica
define antecipadamente o que será produzido com base em previsões, na produção
puxada a produção acontece em resposta à demanda do cliente.
Em outras palavras, o consumo passa a
"puxar" a produção.
Isso significa que a empresa evita fabricar
produtos sem uma necessidade real, reduzindo o risco de produzir itens que
permanecerão armazenados em estoque.
Imagine uma empresa que fabrica os produtos A, B e C.
Observe que a empresa continua realizando seu
planejamento de produção. A diferença é que esse planejamento é constantemente
ajustado conforme a demanda real do mercado, reduzindo o risco de superprodução
e tornando o processo mais flexível.
A produção puxada não é gratuita
Existe, porém, um desafio importante.
Produzir em lotes menores normalmente
significa realizar mais trocas de produto durante o processo.
Observe que no exemplo da produção puxada,
para atender essa sequência de pedidos, a fábrica provavelmente produzirá algo
parecido com:
A → B → A → C
Enquanto, no modelo empurrado, ela produziria
simplesmente:
A → B → C
Isso significa que haverá muito mais trocas de
produto (setups).
Se o tempo de setup for elevado, a empresa
poderá perder produtividade e aumentar seus custos de fabricação.
Foi exatamente esse desafio que a Toyota
precisou resolver.
Para tornar a produção puxada viável, a
empresa investiu fortemente na redução dos tempos de setup, na padronização das
operações e no desenvolvimento de métodos que permitissem realizar trocas
rápidas sem comprometer a produtividade.
Essas iniciativas deram origem a diversas
ferramentas do Sistema Toyota de Produção, que conheceremos nos próximos
artigos.
|
Característica |
Produção Empurrada |
Produção Puxada |
|
Planejamento da Produção |
Baseado em previsões de demanda |
Baseado no consumo ou pedidos do cliente |
|
Objetivo |
Maximizar a utilização da capacidade |
Atender a demanda com o menor desperdício |
|
Tamanho dos lotes |
Grandes lotes |
Pequenos lotes |
|
Estoques |
Estoques elevados para absorver variações |
Estoques reduzidos e controlados |
|
Flexibilidade |
Menor capacidade de reagir às mudanças |
Maior capacidade de adaptação |
|
Número de setups |
Menor |
Maior (exigindo trocas rápidas) |
|
Lead Time |
Maior devido aos estoques |
Menor devido ao fluxo |
|
Mercado mais adequado |
Demanda estável e baixa variedade |
Demanda variável e alta variedade |
Conclusão.
Mas, afinal, por que uma empresa produz mais
do que precisa?
Como vimos ao longo deste artigo, a resposta
normalmente não está na capacidade da fábrica, mas na forma como a produção é
planejada e controlada.
A superprodução costuma ocorrer quando a
empresa prioriza a eficiência da produção por meio de grandes lotes, buscando
reduzir custos, minimizar o número de setups ou aproveitar ao máximo sua
capacidade produtiva. O problema é que, quando a demanda real não acompanha
esse planejamento, surgem estoques desnecessários e uma sequência de
desperdícios que impactam diretamente o desempenho do processo.
Produção empurrada ou produção puxada: qual é
a melhor?
A resposta é: depende.
Não existe um único modelo capaz de atender
todas as empresas e todos os mercados.
Em ambientes com demanda estável, baixa
variedade de produtos e pouca volatilidade, a produção empurrada pode ser uma
estratégia bastante eficiente.
Por outro lado, mercados com grande
diversidade de produtos, mudanças frequentes na demanda e necessidade de
respostas rápidas tendem a se beneficiar da produção puxada.
Na prática, muitas empresas adotam um modelo
híbrido, combinando os dois conceitos. Parte da produção é planejada com
base em previsões de mercado, produtos de maior variabilidade são produzidos
conforme o consumo do mercado. Além disso, busca-se definir tamanhos de lote
que equilibrem flexibilidade, produtividade e custos operacionais.
Mais importante do que escolher um modelo é
compreender as características do mercado, o comportamento da demanda e a
capacidade de adaptação do próprio processo. Somente assim será possível
definir uma estratégia que reduza desperdícios e maximize os resultados da
operação.
O que vem no próximo artigo?
Até aqui entendemos por que a produção puxada
ajuda a reduzir o desperdício da superprodução. Mas isso nos leva a uma nova
pergunta:
Como produzir apenas o necessário, no momento
certo e sem comprometer a produtividade?
A resposta está em um dos pilares do Sistema
Toyota de Produção: o Just in Time.
No próximo artigo vamos entender esse conceito
e descobrir como ele permitiu à Toyota reduzir estoques, aumentar a
flexibilidade e transformar a maneira como as empresas planejam sua produção.
Até lá!👋

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