Kanban: muito além dos cartões de produção
Um dos
maiores desafios da Produção Puxada e do Just in Time é garantir que todos os
processos estejam sincronizados, produzindo apenas o necessário, na quantidade
certa e no momento certo.
Para isso,
cada processo precisa saber exatamente quando produzir e quanto
produzir, evitando tanto a falta quanto o excesso de materiais entre as
etapas.
Imagine um
produto que precisa passar por três processos produtivos.
Se
analisarmos cada processo individualmente, é possível que todos apresentem
excelentes indicadores de desempenho, como alta produtividade e eficiência.
Entretanto,
ao observarmos o fluxo completo, percebemos uma realidade diferente: grandes
estoques intermediários, Work in Process (WIP), e longos tempos de espera entre
as etapas.
Para
reduzir esses estoques e melhorar o fluxo, a Produção Puxada estabelece que
cada processo deve produzir apenas aquilo que o processo seguinte realmente
necessita.
No papel
parece uma ideia muito boa, mas na prática surgir uma dúvida:
Como
garantir que cada processo saiba exatamente quando e quanto ele deve produzir?
A resposta encontrada
pela Toyota foi o Kanban.
Neste
artigo vamos falar sobre Kanban, seu funcionamento e como essa ferramenta
tornou possível colocar em prática os princípios da Produção Puxada e do Just
in Time.
O que é Kanban?
Kanban significa literalmente "cartão" ou "sinal
visual" em japonês.
Sua principal função é autorizar a produção ou a movimentação de
materiais, indicando quando um processo deve produzir e qual quantidade deve
ser entregue ao processo seguinte.
O conceito é simples: em vez de cada processo produzir de acordo com sua
própria capacidade ou previsão, ele passa a produzir de acordo com o consumo do
processo seguinte.
A inspiração de Taiichi Ohno para essa lógica foi o funcionamento dos supermercados.
Imagine uma prateleira com uma quantidade limitada de espaços para
determinado produto. Enquanto os produtos estão disponíveis, não existe
necessidade de reposição. Quando um cliente retira um produto da prateleira,
surge um espaço vazio. Esse espaço representa uma necessidade de reposição.
Ohno percebeu que os supermercados utilizavam uma lógica diferente da
produção tradicional: os produtos eram repostos conforme eram consumidos, e
essa lógica poderia ser aplicada à fábrica.
Voltando ao exemplo do produto que passa por três processos, podemos
olhar o fluxo de trás para frente.
No final do
terceiro processo temos o produto final que é disponibilizado para o cliente.
Conforme os produtos são retirados, surge a necessidade de reposição.
Essa
necessidade gera um sinal para o terceiro processo produzir novamente.
Para
produzir, o terceiro processo retira do segundo processo a quantidade
necessária de materiais.
O segundo
processo, por sua vez, recebe um sinal para repor aquilo que foi consumido e
retira os materiais necessários do primeiro processo.
Assim, o
consumo de um processo gera uma necessidade no processo anterior, criando um
fluxo de reposição que percorre toda a cadeia.
Dessa
forma, o fluxo funciona como uma cadeia de reposição:
Consumo → Sinal → Reposição → Novo
consumo
É essa comunicação que o Kanban ajuda a estabelecer.
O objetivo não é fazer com que todos os processos produzam
continuamente. É justamente o contrário.
Cada processo deve produzir somente quando existir uma necessidade
sinalizada pelo processo seguinte.
Essa lógica ajuda a controlar os estoques intermediários e evita que um
processo continue produzindo quando o processo seguinte já atingiu sua
capacidade de armazenamento.
Mas onde está o cartão?
No início, essa comunicação era realizada de maneira bastante simples:
por meio de cartões físicos que continham informações necessárias para
identificar o material, sua quantidade e o processo de origem e destino.
O cartão acompanhava o material e funcionava como uma autorização para
produzir ou movimentar determinada quantidade.
Por isso, embora muitas vezes o Kanban seja associado ao cartão, o
cartão é apenas uma das formas de realizar o sinal Kanban.
O mais importante é o princípio por trás dele:
O consumo gera o sinal e o sinal autoriza a reposição.
Esse princípio permite que os processos trabalhem de maneira
sincronizada, evitando que cada etapa produza indiscriminadamente apenas porque
possui capacidade disponível.
Tipos de Kanban
Existem diferentes formas de aplicar o Kanban, dependendo do que se
deseja controlar.
Kanban de Produção: É utilizado para indicar que determinado processo deve fabricar uma
quantidade específica de um produto.
Exemplo: Produzir
20 unidades do Produto A.
Enquanto não existir um sinal de produção, o processo não deve produzir
aquele lote. Isso ajuda a evitar a superprodução, um dos principais
desperdícios identificados pelo Lean.
Kanban de Movimentação: Também chamado de Kanban de Transporte, está relacionado à movimentação
dos materiais entre os processos. Ele indica que determinado material deve ser
retirado de um ponto e levado para outro
Exemplo: Retirar
20 unidades do estoque do Processo 1 e entregar ao Processo 2.
Nesse caso, o sinal não autoriza a fabricação do material, mas sua
movimentação.
Além dessas aplicações, o Kanban também pode utilizar diferentes formas
de sinalização. Uma delas é o Kanban Eletrônico. Hoje, os sinais podem ser
gerados eletronicamente por sistemas, leitores de código de barras, sensores ou
outras tecnologias.
O princípio, entretanto, continua o mesmo: o consumo gera uma
necessidade e essa necessidade gera um sinal de reposição.
A tecnologia pode tornar o processo mais rápido e rastreável, mas não
muda a lógica fundamental do Kanban.
Kanban na Agilidade
Na Agilidade, é comum encontrarmos o Kanban representado por um quadro, eletrônicos
ou físicos feitos com post-its, dividido em etapas, como:
A Fazer → Em
Andamento → Concluído
Cada atividade é representada visualmente e movimentada pelo quadro
conforme o trabalho avança.
A ideia continua sendo a mesma: visualizar o fluxo e evitar que o
sistema fique sobrecarregado.
Uma das principais práticas nesse contexto é estabelecer limites para o WIP
(Work in Progress), ou seja, limitar a quantidade de atividades que podem
permanecer simultaneamente em uma determinada etapa.
Exemplo: Uma
equipe tem capacidade para trabalhar em cinco atividades simultaneamente.
Se dez
atividades forem iniciadas ao mesmo tempo, provavelmente teremos várias tarefas
parcialmente concluídas, pessoas alternando constantemente entre atividades e
um aumento no tempo necessário para finalizar cada trabalho.
Ao limitar
o WIP, a equipe passa a terminar o que já começou antes de iniciar novas
atividades.
O objetivo é melhorar o fluxo e reduzir o acúmulo de trabalho em
andamento. Apesar das diferenças entre a aplicação industrial e a aplicação na
Agilidade, existe um princípio em comum.
Não basta iniciar trabalho. É preciso garantir que o trabalho consiga
fluir.
Na indústria, o Kanban ajuda a controlar o fluxo de materiais entre os
processos. Na Agilidade, ele ajuda a controlar o fluxo de tarefas e
informações.
Em ambos os casos, a gestão visual permite identificar rapidamente onde
o trabalho está acumulando e onde podem existir restrições no fluxo.
Conclusão.
O Kanban
pode parecer, à primeira vista, apenas um cartão utilizado para controlar a
produção. Mas seu verdadeiro valor está muito além do cartão.
Ele cria
uma linguagem comum entre os processos, permitindo que cada etapa saiba
quando deve produzir, quanto deve produzir e quando deve aguardar.
Ao utilizar
o consumo como sinal para a reposição, o Kanban ajuda a reduzir a
superprodução, controlar os estoques intermediários e melhorar o fluxo dos
processos.
Produção
Puxada não significa simplesmente produzir menos. Significa produzir de acordo
com a necessidade real do processo seguinte.
O Kanban é
uma das ferramentas que tornam esse princípio possível na prática.
E quando
conseguimos fazer com que os processos trabalhem de forma sincronizada,
deixamos de olhar apenas para o desempenho individual de cada etapa e passamos
a enxergar aquilo que realmente importa: o desempenho do fluxo como um todo.
O que vem no próximo artigo?
Até aqui,
vimos como a Produção Puxada utiliza o Kanban para sinalizar quando e quanto
produzir, permitindo que os processos trabalhem de forma sincronizada e
reduzindo estoques e desperdícios.
Mas existe
um novo desafio: O que acontece quando a demanda não é constante?
Imagine uma
fábrica que precisa produzir 100 unidades de um produto hoje, 20 amanhã e 150
no dia seguinte. O Kanban ajuda a sinalizar a necessidade de reposição, mas
como lidar com essas oscilações sem gerar sobrecarga, estoques ou ociosidade?
É nesse
contexto que entra o Heijunka, uma das ferramentas utilizadas pelo Lean
para realizar o nivelamento da produção.
No próximo
artigo, vamos entender como o Heijunka busca equilibrar a produção ao longo do
tempo, reduzindo os efeitos das oscilações da demanda e tornando o fluxo mais
estável e previsível.
Até lá! 👋



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