Takt Time: o que é, como calcular e exemplos práticos

No último artigo falamos sobre o Heijunka e a importância de nivelar o volume e o mix de produção para reduzir desperdícios, flexibilizar processos e garantir entregas constantes.

Porém, esse conceito nos leva a um novo questionamento:

Qual deve ser o ritmo dessa produção?

Abordamos conceitos como o tempo de set-up e seu impacto na capacidade produtiva, uma vez que ele reduz o tempo disponível para operação. Além disso, discutimos o lote mínimo recomendado para reduzir custos operacionais e como essas informações devem ser utilizadas para definir o melhor sequenciamento da produção.

Mas existe uma informação importante que não exploramos em detalhes.

Utilizando o mesmo exemplo do artigo anterior, em que um processo produz três tipos diferentes de produtos, possui uma demanda de 1.000 unidades por semana e uma capacidade média de produção de 200 unidades por dia, podemos fazer algumas reflexões.

Ao analisar esses números isoladamente, pode parecer que o processo é perfeitamente capaz de atender à demanda. Afinal, se forem produzidas 200 unidades por dia durante cinco dias, ao final da semana teremos as 1.000 unidades necessárias.

No entanto, existe um aspecto importante a ser considerado: estamos falando de uma capacidade média. Em alguns momentos o processo pode produzir 300 unidades em um dia e, em outros, apenas 100. No final do período a média continuará sendo de 200 unidades por dia, mas isso não garante que o mercado será atendido quando precisa dos produtos.

Por isso, quando avaliamos a capacidade de atender à demanda do mercado, utilizamos o conceito de Takt Time. Ele é uma referência do ritmo de produção necessário para acompanhar a demanda dos clientes e garantir que as entregas ocorram de forma consistente.

Neste artigo, vamos entender o que é o Takt Time, como calculá-lo e de que forma ele auxilia na identificação das principais oportunidades de melhoria dentro de um processo produtivo.

O que é Takt Time?

Uma analogia simples para entender o conceito de Takt Time é pensar na batida do nosso coração. O coração bate em um ritmo que garante a distribuição adequada do sangue para todo o corpo. Quando esse ritmo acelera ou desacelera excessivamente, podem surgir consequências negativas para o organismo.

Esse mesmo conceito pode ser aplicado a um processo produtivo. Se o ritmo de produção for muito maior que a demanda do mercado, teremos superprodução e, consequentemente, excesso de estoque. Por outro lado, quando o ritmo de produção é menor que a demanda, corremos o risco de não atender os clientes, gerando atrasos e insatisfação.

Takt Time é o ritmo de produção necessário para atender à demanda do cliente dentro do tempo disponível de operação.

Como calcular o Takt Time?

Takt Time = Tempo Disponível ÷ Demanda do Cliente

Tempo Disponível:

É a quantidade de horas, minutos ou segundos programados para realizar uma determinada atividade ou operação.

Exemplo: uma linha de produção foi programada para fabricar um produto durante 8 horas. Portanto, seu tempo disponível é de 8 horas, ou 480 minutos, ou ainda 28.800 segundos.

Um ponto importante é considerar apenas o tempo realmente disponível para execução da atividade. Se um analista possui uma jornada de 8 horas, mas tem direito a 1 hora de almoço, seu tempo disponível é de 7 horas, e não de 8 horas.

O mesmo raciocínio vale para processos industriais. Se existirem paradas planejadas dentro do período programado de produção, esse tempo deve ser descontado da disponibilidade. Esse conceito é semelhante ao utilizado no cálculo do OEE (Overall Equipment Effectiveness).

Demanda do Cliente:

É a quantidade de produtos ou serviços que os clientes demandam em um determinado período.

Para estimar esse valor, é necessário analisar o histórico de vendas, as condições atuais do mercado e os prognósticos de demanda, uma vez que esse volume pode variar ao longo do tempo.

Quando calculamos o Takt Time é importante definir qual índice de tempo estamos nos referindo: demanda dia, semana ou mês. Os denominadores de Disponibilidade e Demanda devem ser iguais, se eu falo de disponibilidade mês, então devo considerar demanda mês.

Exemplo: Imagine uma lanchonete que em média recebe 240 pedidos durante o intervalo do almoço, que é considerado entre 12:00 e 14:00.

Qual o ritmo de entrega de pedidos que essa lanchonete deve ter?

Para descobrir o Takt Time, dividimos o tempo disponível pela demanda:

Takt Time = 120 minutos ÷ 240 pedidos = 0,5 minuto por sanduíche

Ou seja, a lanchonete precisa entregar 1 pedido a cada 30 segundos para atender todos os clientes durante o horário de almoço.

Devemos ter em mente que o Takt Time não diz o quão rápido conseguimos produzir. Ele diz o quão rápido precisamos produzir para atender a demanda dos clientes.

Takt Time na prática

Vamos retomar o exemplo do processo que produz três tipos de produtos, com demanda de 1.000 unidades por semana.

Se a fábrica opera 5 dias por semana, em turnos de 8 horas, com 1 hora de parada para almoço e mais 20 minutos distribuídos em paradas programadas (troca de turno, ginástica laboral, limpeza), o tempo disponível diário é de:

480 minutos − 60 minutos (almoço) − 20 minutos (paradas programadas) = 400 minutos disponíveis por dia

Em uma semana de 5 dias, isso equivale a 2.000 minutos disponíveis.

Takt Time = 2.000 minutos ÷ 1.000 unidades = 2 minutos por unidade

Para que o processo consiga acompanhar o Takt Time, cada etapa precisa ser dimensionada para operar em um tempo de ciclo compatível com os 2 minutos, independente se é o produto A, B ou C. Quando uma etapa ultrapassa esse valor, ela se torna uma restrição para o fluxo. É esse ritmo que deve orientar o sequenciamento, o dimensionamento de mão de obra e a forma como os postos de trabalho são organizados ao longo do dia.

Note a diferença de raciocínio em relação ao que fizemos antes: a capacidade média de 200 unidades/dia olha para o resultado ao final do período. O Takt Time olha para o ritmo necessário a cada instante da operação, o que é justamente o que garante que a demanda seja atendida sem picos de atraso nem excesso de estoque no meio do caminho.

Takt Time x Tempo de Ciclo

É comum confundir Takt Time com Tempo de Ciclo, mas eles respondem perguntas diferentes:

ConceitoTakt TimeTempo de Ciclo
O que representa?Ritmo necessárioRitmo realizado
Determinado porDemanda do clienteProcesso
ObjetivoAtender à demandaMedir a capacidade do processo

A comparação entre os dois indicadores é o que revela se um processo está equilibrado, sobrecarregado ou ocioso:

  • Tempo de Ciclo = Takt Time: o processo está no ritmo ideal, produzindo exatamente o necessário para atender a demanda, sem desperdício de capacidade nem risco de atraso;
  • Tempo de Ciclo > Takt Time: o processo é mais lento do que o necessário. Existe risco real de não atender a demanda, gerando atrasos, filas ou necessidade de horas extras;
  • Tempo de Ciclo < Takt Time: o processo é mais rápido do que o necessário. Isso parece positivo à primeira vista, mas frequentemente esconde superprodução, operadores ociosos ou capacidade mal aproveitada que poderia ser realocada.

Voltando ao exemplo da lanchonete:

Exemplo: se o Takt Time é de 30 segundos por pedido, mas o tempo de ciclo real da cozinha é de 45 segundos por pedido, sabemos exatamente onde está o problema e qual é o tamanho do gap a ser fechado.

Há um detalhe importante nessa comparação. Para que o processo consiga acompanhar o Takt Time, cada etapa precisa ser dimensionada para suportar o ritmo necessário. Quando a capacidade de uma etapa é inferior ao ritmo exigido, ela se torna uma restrição para o fluxo.

Retomando o exemplo da fábrica, imagine que, para produzir uma peça, o processo passa por 3 etapas, e o Takt Time calculado é de 2 minutos por peça. Isso significa que cada uma das 3 etapas precisa ser dimensionada para suportar o ritmo necessário.

Não adianta a Etapa 1 ter um tempo de ciclo de 1 minuto, a Etapa 2 de 3 minutos e a Etapa 3 de 2 minutos. Mesmo que duas das três etapas estejam dentro do Takt Time, o ritmo real de saída do processo será de 3 minutos por peça, o tempo da etapa mais lenta.

Um processo nunca é mais rápido do que sua etapa mais lenta, o gargalo. 

Por isso, ao comparar Tempo de Ciclo e Takt Time, o ideal é fazer essa análise etapa por etapa, e não apenas olhar para o processo como um todo. É essa visão detalhada que aponta exatamente onde a capacidade precisa melhorar.

Takt Time x Tempo de Ciclo x Lead Time

ConceitoO que representa
Takt TimeRitmo necessário para atender à demanda
Tempo de CicloTempo necessário para produzir uma unidade
Lead TimeTempo total que o produto ou pedido leva para atravessar o processo

Quando a capacidade não acompanha o Takt?

Ao comparar Tempo de Ciclo e Takt Time, é comum identificar que um ou mais postos de trabalho não conseguem acompanhar o ritmo necessário. Nesse cenário, algumas frentes de ação costumam ser avaliadas, geralmente nesta ordem:

  1. Eliminar desperdícios no processo atual: Antes de qualquer investimento, vale mapear o trabalho em busca de esperas, deslocamentos desnecessários e retrabalho que estejam inflando o tempo de ciclo sem agregar valor.
  2. Balancear o processo: Redistribuir atividades entre os postos de trabalho, de forma que a carga fique mais equilibrada e nenhuma etapa vire um gargalo isolado.
  3. Reduzir o tempo de set-up: Como vimos no artigo anterior, o tempo de troca impacta diretamente o tempo disponível. Aplicar técnicas como SMED pode liberar capacidade sem qualquer investimento em equipamento.
  4. Adicionar recursos: Quando as alternativas acima não são suficientes, pode ser necessário adicionar mão de obra, um turno extra ou um novo equipamento, sempre a última opção, por ser a de maior custo.
  5. Revisar a própria demanda ou o mix de produção: Em alguns casos, o gap entre capacidade e Takt Time é sinal de que vale renegociar prazos com o cliente ou repensar o mix de produtos, especialmente quando um item específico está consumindo capacidade desproporcional.

O importante é lembrar que o Takt Time não se ajusta à capacidade do processo, é o processo que precisa se ajustar ao Takt Time exigido pelo mercado.

Heijunka + Takt Time

Aqui os dois conceitos se encontram. O Heijunka nivela o volume e o mix de produção para evitar picos e vales de demanda internos à fábrica. O Takt Time, por sua vez, define o ritmo exato em que esse volume nivelado precisa ser entregue.

Na prática, é o Takt Time que dá ao Heijunka a régua para o sequenciamento. Retomando o exemplo dos três produtos: se a demanda semanal de 1.000 unidades for dividida proporcionalmente entre os produtos A, B e C, o Takt Time de 2 minutos por unidade indica exatamente de quanto em quanto tempo cada tipo de produto deve entrar na linha para manter o fluxo nivelado, evitando tanto a produção em grandes lotes de um único item quanto a variação excessiva de ritmo ao longo do dia.

Juntos, Heijunka e Takt Time formam a base para um fluxo de produção estável, um define o "o quê" e "quando" produzir, e o outro define o "quão rápido". É essa combinação que permite atender à demanda do cliente de forma consistente, sem os extremos de superprodução ou atraso que vimos no início deste artigo.

Conclusão

Capacidade média não é sinônimo de capacidade adequada. Como vimos no início deste artigo, um processo pode ter uma média de 200 unidades/dia e, ainda assim, falhar em atender o cliente no momento certo, simplesmente porque não segue um ritmo constante.

Na prática, entender o Takt Time é o primeiro passo para transformar metas de demanda em decisões concretas de processo e é isso que permite que uma operação atenda seus clientes de forma previsível, sem os extremos de estoque parado ou pedidos atrasados.

Em resumo, o Takt Time transforma a demanda do cliente em um ritmo de produção. Ele não mostra quanto o processo consegue produzir, mas qual ritmo de produção precisa manter para acompanhar o mercado. Quando comparado ao Tempo de Ciclo, permite identificar rapidamente onde existem restrições de capacidade e oportunidades de melhoria.

O que vem no próximo artigo?

Agora que entendemos como o Takt Time define o ritmo necessário para atender à demanda, surge uma nova pergunta:

O que fazer quando uma etapa do processo limita todo o fluxo de produção?

No próximo artigo, vamos falar sobre a Teoria das Restrições (TOC) e entender como identificar o principal gargalo de um sistema, como ele influencia o desempenho de todo o processo e quais ações podem ser tomadas para aumentar o seu resultado.

Afinal, melhorar cada etapa isoladamente não significa necessariamente melhorar o processo como um todo.

Até lá!👋

Perguntas frequentes sobre Takt Time

O que é Takt Time?

Takt Time é o ritmo de produção necessário para atender à demanda do cliente dentro do tempo disponível de operação.

Como calcular o Takt Time?

O Takt Time é calculado dividindo o tempo disponível de produção pela demanda do cliente no mesmo período.

Takt Time = Tempo Disponível ÷ Demanda do Cliente

Qual a diferença entre Takt Time e Tempo de Ciclo?

O Takt Time representa o ritmo necessário para atender à demanda. O Tempo de Ciclo representa o ritmo que o processo consegue produzir.

O que acontece quando o Tempo de Ciclo é maior que o Takt Time?

O processo não consegue acompanhar o ritmo necessário para atender à demanda, indicando uma restrição de capacidade e potencial risco de atrasos.

O Takt Time muda quando a demanda muda?

Sim. Como o Takt Time depende da demanda do cliente e do tempo disponível, alterações nesses fatores podem modificar o ritmo necessário de produção.

Takt Time é capacidade produtiva?

Não. O Takt Time representa o ritmo necessário para atender à demanda. A capacidade produtiva representa o quanto o processo consegue produzir.

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