Como definir um problema

Como definir um problema na produção

Nem todo problema percebido é, de fato, o problema que deve ser investigado.

No ambiente industrial é comum surgir uma situação como “a produtividade está baixa”, “há muitas perdas”, “o indicador piorou” ou “a qualidade está ruim”. Essas afirmações podem sinalizar que existe algo a ser investigado, mas ainda são amplas demais para orientar um trabalho de melhoria.

Antes de procurar causas, ferramentas ou soluções, existe uma decisão anterior:

Qual problema realmente precisa ser investigado?

Definir um problema significa transformar uma situação indesejada em um foco claro, específico e mensurável. Isso ajuda a direcionar o esforço para uma situação que tenha relevância para o processo e para o negócio.

O objetivo não é encontrar a causa neste momento. É estabelecer um foco suficientemente claro para que a investigação posterior possa partir de uma situação bem definida.

O que significa definir um problema?

Definir um problema não é simplesmente escrever uma frase dizendo o que está errado.

É transformar uma situação percebida em uma definição que permita compreender o que está acontecendo, onde, quando, quanto, com que frequência e qual é o impacto ou risco associado.

Uma forma útil de começar é comparar a situação atual com uma condição esperada. [2]

O indicador é uma medida utilizada para acompanhar ou representar o comportamento de determinado aspecto do processo. Ele pode representar produtividade, perdas, qualidade, tempo, entre outros. Para identificar uma situação que pode caracterizar um problema, é necessário comparar o resultado observado por meio do indicador com uma condição esperada.

A condição esperada é a referência que representa o que deveria ocorrer no processo. Ela pode ser definida por uma meta, um padrão, uma especificação, um requisito ou outro parâmetro estabelecido para avaliar o desempenho.

Imagine, por exemplo: “A linha está com baixa produtividade.”

Essa afirmação indica uma percepção, mas ainda não define adequadamente o problema.

Uma formulação mais específica seria: “A Linha 3 produziu, em média, 820 unidades por turno nas últimas quatro semanas, enquanto a condição esperada é de 1.000 unidades por turno.”

Agora existe uma situação atual, uma condição esperada e uma diferença observada entre elas.

Essa diferença ajuda a delimitar o problema que merece ser investigado.

Ainda não estamos afirmando por que a produção ficou abaixo do esperado. Essa questão pertence a uma etapa posterior.

Quando uma situação merece atenção?

A existência de uma diferença entre o resultado observado e uma condição esperada não significa, por si só, que qualquer desvio deva receber o mesmo esforço de investigação.

É necessário avaliar a relevância da situação.

Essa avaliação pode considerar impacto atual ou risco potencial sobre: custo, produtividade, qualidade, entrega, segurança, meio ambiente, conformidade, outros resultados relevantes para o processo e para o negócio.

A frequência também é uma informação importante, mas não determina sozinha a relevância.

Exemplo:

Considere dois problemas hipotéticos:

ProblemaFrequência Impacto mensal
Problema A20 ocorrênciasR$ 5.000 /mês
Problema B2 ocorrênciasR$ 30.000 /mês

O Problema A acontece dez vezes mais do que o Problema B. Porém, o impacto mensal associado ao Problema B é maior.

O exemplo não determina qual problema deve ser escolhido. Ele mostra apenas que frequência, isoladamente, não é suficiente para avaliar relevância.

É necessário compreender a situação dentro do contexto do processo.

Essa lógica também é importante quando o problema percebido está relacionado a perdas e desperdícios do processo.

Como caracterizar o problema?

Depois de reconhecer uma situação indesejada, algumas perguntas ajudam a delimitar o problema:

  • O que está acontecendo?
  • Onde acontece?
  • Quando acontece?
  • Quanto está acontecendo?
  • Com que frequência acontece?
  • Qual é o impacto ou risco?
  • Como sabemos disso?

Essas perguntas não precisam ser tratadas como um checklist burocrático. Elas servem para organizar o raciocínio e evitar que uma situação ampla seja transformada prematuramente em um problema genérico.

As respostas devem ser sustentadas, sempre que possível, por evidências como indicadores, registros, dados, observações e outras informações disponíveis.

A ausência de dados também pode ser relevante. Ela pode indicar uma lacuna de medição que precisa ser reconhecida antes de avançar.

Etapas para transformar uma percepção em um problema definido

Aplicação prática: da percepção à definição do problema

Para visualizar esse raciocínio completo, considere o exemplo hipotético de uma linha de produção.

1. A percepção inicial

A equipe percebe que a linha está produzindo abaixo do esperado.

A primeira afirmação é: “A linha está com baixa produtividade.”

Essa percepção é suficiente para chamar atenção, mas ainda não é uma boa definição de problema.

2. Avaliar a relevância

A condição esperada para a linha é produzir 1.000 unidades por turno.

Ao analisar os resultados, observa-se uma produção média de 820 unidades por turno nas últimas quatro semanas.

A diferença é de 180 unidades por turno.

Existe, portanto, uma situação que merece ser compreendida.

3. Buscar evidências

Em vez de partir imediatamente para uma explicação, a equipe reúne os registros disponíveis para entender como o fenômeno se manifesta.

Nesse momento, o objetivo é responder perguntas como:

  • A diferença ocorre em todos os turnos?
  • O comportamento se repete ao longo do período?
  • Está concentrado em determinada linha?
  • Ocorre com todos os produtos?
  • O resultado observado é realmente diferente da condição esperada?

Essas perguntas ajudam a transformar uma percepção inicial em uma situação sustentada por evidências.

4. Delimitar

Suponha que os dados mostrem que a diferença está concentrada na Linha 3, ocorre nos turnos da manhã e da tarde e se mantém ao longo das últimas quatro semanas.

O problema já pode ser delimitado com muito mais precisão do que na afirmação inicial.

5. Formular

A partir das informações disponíveis, uma definição possível seria:

“A Linha 3 produziu, em média, 820 unidades por turno nas últimas quatro semanas, nos turnos da manhã e da tarde, frente à condição esperada de 1.000 unidades por turno.”

Essa definição apresenta:

  • o que está acontecendo;
  • onde acontece;
  • quando acontece;
  • quanto foi observado;
  • qual é a condição esperada;
  • qual é a diferença observada.

Ela não afirma qual é a causa.

6. Validar o foco

Antes de avançar para uma investigação posterior, a equipe deve verificar se a definição está suficientemente clara e relevante.

Neste exemplo, é possível responder:

  • Sabemos qual é a situação?
  • Sabemos onde ela ocorre?
  • O período está definido?
  • O resultado está quantificado?
  • Existe uma condição esperada para comparação?
  • A diferença foi sustentada por dados?
  • Existe relevância suficiente para justificar a investigação?

Se essas respostas forem satisfatórias, o foco está suficientemente delimitado para a próxima etapa.

O objetivo dessa etapa não é descobrir por que a Linha 3 produziu menos. É confirmar que a equipe sabe exatamente qual situação está investigando.

Problema, sintoma e causa não são a mesma coisa

Uma situação pode apresentar diferentes níveis de descrição.

Sintoma é uma manifestação observável.

Problema é a situação relevante que precisa ser investigada, delimitada pela condição atual, pela condição esperada e pela diferença observada.

Causa é uma explicação para a ocorrência do problema.

Essa distinção é importante porque definir o problema e investigar a causa são etapas diferentes. [1][2]

Abaixo um vídeo que ajuda a entender o que acontece quando tratamos o sintoma como problema.

Portanto, não fazem parte desta etapa ferramentas ou métodos destinados a identificar e validar causas ou ações como:

  • 5 Porquês;
  • Diagrama de Ishikawa;
  • Validação de causas;
  • Plano de Ação.

Primeiro, é necessário saber qual problema está sendo investigado.

Definir o problema é, portanto, uma etapa de foco: antes de investigar causas ou definir contramedidas, é necessário saber exatamente qual situação está sendo investigada.

Erro comum ao definir um problema

Quando surge um desvio, é comum a equipe começar imediatamente a testar ajustes, alterar parâmetros, trocar procedimentos ou implementar alguma ação.

O risco é entrar em tentativa e erro antes de estabelecer claramente o que está sendo tratado.

Isso pode acontecer especialmente quando existe pressão por respostas rápidas. A conversa pode ser direcionada imediatamente para ‘O que vamos fazer?’ ou ‘O que já foi feito para resolver?’, antes de uma pergunta mais básica: ‘Qual é exatamente o problema que estamos tentando resolver?’

Quando isso acontece, a equipe pode passar da percepção do problema diretamente para uma causa presumida ou para uma ação, sem antes delimitar a situação, entrando em um loop.

Ciclo de tentativa e erro antes da definição clara do problemaProblema percebido → pressão por resposta → ação → resultado não resolve → nova ação → tentativa e erro

A pergunta deveria vir antes da ação:

Qual situação estamos tentando resolver?

Definir o problema antes de agir ajuda a evitar que a equipe entre em um ciclo de tentativa e erro sem ter estabelecido claramente o que precisa ser resolvido.

Conclusão

Um indicador fora do esperado, uma perda, uma reclamação ou um resultado abaixo da meta pode ser o início de um trabalho de melhoria. Mas o primeiro passo não é necessariamente buscar uma causa ou escolher uma solução.

É definir com clareza qual problema merece ser investigado.

Uma boa definição conecta a situação atual à condição esperada, utiliza evidências para delimitar o fenômeno e considera sua relevância para o processo e para o negócio.

Também evita dois atalhos comuns: explicar a causa antes de definir o problema e agir antes de saber exatamente o que precisa ser tratado.

Em resumo:

Antes de procurar a causa, defina o problema; antes de escolher a solução, valide o foco.

Referências

  • [1] ASQ. Advanced Problem Solving at Xerox.
  • [2] LEAN ENTERPRISE INSTITUTE. Why Effective Problem Solving Begins with a Good Problem Statement.

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